Há 27 anos, uma multidão invadia o circuito de Interlagos

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GP do Brasil:

Não podia ser diferente (e mais saboroso) para os brasileiros fãs de F1. No dia 28 de março de 1993, há exatos 27 anos, Ayrton Senna vencia o GP do Brasil e fazia com que uma multidão em polvorosa invadisse a reta oposta de Interlagos para comemorar a vitória com o já consagrado tricampeão mundial.

O ano de 1992 não foi uma boa temporada para os brasileiros na Fórmula 1. A McLaren, com Ayrton Senna e Gerhard Berger, não era o mesmo carro vencedor dos anos passados – a equipe venceu seis dos oito campeonatos de construtores entre 1984 e 1991 – e a Williams chegava com força total para tomar o lugar da compatriota com Nigel Mansell e Ricardo Patrese ao volante do FW14B.

No fim, a equipe de Grove venceu 10 das 16 corridas da temporada e ficou com o título entre os construtores, enquanto Mansell ganhava seu primeiro (e único) mundial de F1. A McLaren, que vinha de quatro títulos consecutivos entre as equipes (88, 89, 90 e 91), enfrentou problemas com o MP4/7 e a difícil adaptação ao Honda V12, terminando com Senna em quarto entre os pilotos (subindo sete vezes ao pódio durante a temporada) e o vice-campeonato entre os construtores, 65 pontos atrás da Williams e apenas oito à frente da Benetton.

Três brasileiros estavam no grid da F1 em 1992. Christian Fittipaldi fazia sua estreia pela Minardi, marcando um ponto em seu primeiro ano de F1, ao conseguir um sexto lugar no GP do Japão. Roberto Pupo Moreno (Andrea Moda Formula) e Maurício Gugelmin (Sasol Jordan Yamaha) tiveram problemas durante o ano e não pontuaram.

Em 1992, a verdade é que os brasileiros estavam ficando mal-acostumados (se é que é justo falar assim) com as vitórias e o reinado tupiniquim na F1. O país vinha de um bicampeonato de Senna (90 e 91) e ainda pode ver o piloto sete vezes no pódio durante o ano, três delas na posição mais alta. Mas a vitória em Interlagos, depois da suada consagração de Senna ao vencer o GP do Brasil de 1991, não veio e frustrou a torcida. Senna abandonou o GP do Brasil de 1992 depois de completar 17 voltas.

“Estava muito perigoso guiar. Em quinta marcha e em cima de uma ondulação, o carro podia mudar a trajetória sem que eu soubesse para onde ele iria. Por isso, resolvi abandonar a prova e esperar pela suspensão ativa prometida para o GP da Espanha”, disse Senna após a corrida.

Em 1993, Alain Prost retornava de sua aposentadoria na Williams e, com o carro mais forte do grid, era o favorito ao título – o que acabou se confirmando. A McLaren terminava sua parceria com a Honda e sofria com a falta de potência do Ford Cosworth V8.

Na primeira corrida da temporada, na África do Sul, Alain Prost venceu com Senna em segundo, Mark Blundell (Ligier) completou o pódio. Apesar da aparente segunda boa posição, Prost foi dominante e recebeu a bandeira quadriculada quase um minuto e 20 segundos à frente do brasileiro.

Chegando no Brasil para a segunda etapa da temporada de 1993, a torcida sabia que Senna teria uma missão quase que impossível que era superar as Williams em Interlagos, com as arquibancadas totalmente abarrotados para ver o circo. O que poucos sabem é que Senna quase não participou do GP do Brasil de 1993 por desacertos com a assinatura de seu contrato junto à McLaren, mas no fim ele estava no grid para fazer sua centésima corrida com a equipe.

Durante os dias de treinos que antecederam o Grande Prêmio só deu Williams. Prost e o estreante na equipe Damon Hill fizeram a dobradinha em todas as sessões de treinos e mantiveram o bom resultado na qualificação. Sempre seguidos por Senna, apesar da diferença de 1,831s no sábado.

Os brasileiros sabiam que precisavam de uma grande reviravolta para Senna ter chances de vencer no domingo.

A corrida

A largada aconteceu com pista seca e Senna mergulhou por dentro de Hill na entrada do Esse para assumir a segunda posição logo após o sinal verde. O recém campeão da Fórmula Indy, Michael Andretti, companheiro de equipe do brasileiro na McLaren, acertou Gerhard Berger logo na largada e os dois abandonaram a corrida em um violento acidente. Andretti foi levado ao hospital de helicóptero com suspeita de uma fratura no braço direito.

Prost abria lá na frente, volta a volta, enquanto a McLaren visivelmente não era párea para a Williams. Hill era pressionando pela Benetton de Michael Schumacher. Com cinco voltas completadas, Prost já estava 4,3s à frente de Senna, que tinha pouco menos de um segundo de vantagem para Hill.

Com a pressão de Schumacher, Hill partiu para cima do brasileiro e fez a ultrapassagem na volta 10, que começou a ser ameaçado pelo alemão da Benetton. Poucas voltas depois, no 16º giro, alguns pingos de chuva já caiam no circuito de Interlagos, mas as equipes optaram por permanecerem na pista, enquanto os líderes já chegavam nos primeiros retardatários.

Rubens Barrichello teve um problema no câmbio e abandonou, parando sua Jordan na Junção. “Uma pena, quebrou o câmbio de novo. Tinha bandeira amarela pelo acidente, e eu tirei um pouco o pé para guardar os pneus, mas não adiantou nada. Guardei, guardei, no final tive que jogar tudo fora pela quebra do câmbio de novo. Mas ainda é a segunda corrida e tem muito pela frente”, disse o piloto após a corrida. Foi a segunda das 322 corridas disputadas por Barrichello na F1.

Os retardatários iam mantendo Senna à frente de Schumacher, com o brasileiro se aproveitando de cada ultrapassagem para manter a terceira posição. Na volta 24, Senna foi penalizado com um “stop and go” de 10 segundos por ultrapassar Erick Comas sob bandeira amarela. Depois de cumprir a penalidade, Senna voltou 27 segundos atrás de Schumacher na quarta posição.

Foi quando a água veio, na volta 27, e com ela a esperança dos brasileiros se transformava em premonição. Chovia muito na reta de Interlagos, enquanto a pista ainda estava seca em outros lugares. Senna foi o primeiro a parar e trocar pelos pneus de chuva, os antigos pneus biscoito.

Prost ficou na pista, mas Hill foi para os boxes. Uma volta depois, Aguri Suzuki perdeu o controle de sua Arrows e bateu no muro bem próximo a linha de chegada, envolvendo outros pilotos no acidente.

No Esse do Senna, no giro 29, Christian Fittipaldi rodou na entrada da curva e o francês da Williams instantaneamente freou, o carro aquaplanou e acertou a Minardi de Fittipaldi, parando na caixa de brita. Era o fim da corrida para Prost. A bandeira amarela foi agitada e o carro de segurança entrou na pista. Hill era o novo líder.

A relargada veio na volta 36 e o britânico manteve a dianteira. Quatro voltas depois, Senna entrou nos boxes e trocou para os pneus slicks. Hill fez sua parada na volta seguinte e voltou à frente do piloto do McLaren. “Olha a parada, ‘seis ponto quarenta e um’”, Galvão Bueno alertava durante a transmissão sobre a boa troca de pneus da Williams.

Aproveitando a melhor temperatura dos pneus e um aparente erro de Hill na subida do Laranjinha – quando se moveu para a esquerda dando a parte de dentro da curva para o piloto da McLaren – Senna passou e assumiu a liderança da corrida.

Em busca de sua 37ª vitória, Senna manteve a liderança para vencer pela segunda vez em Interlagos, levando o público presente em Interlagos a loucura. “Que Grande Prêmio, que corrida fantástica”, afirmou Galvão. “É o Brasil na frente!”

“Aí vem Ayrton Senna, na metade da última volta. Ele já viu a câmera posicionada e fez um sinal de V de vitória.

“Ayrton Senna vai para o Bico de Pato. Bandeiras agitadas em verde e amarelo em todo o circuito, ele dá um tchauzinho para a câmera.

“Últimas curvas para Ayrton Senna, ele vem pela subida. Mihaly Hidasy aguarda com a bandeira quadriculada.

“Aí vem Senna na reta, é o final da prova. Ayrton Senna na ponta dos dedos.

“Ayrton, Ayrton, Ayrton Senna do Brasil! Ayrton Senna do Brasil!

“Ele pega a bandeira, repete o ritual. Vai Ayrton Senna, vai a loucura a arquibancada em Interlagos. A chuva veio na hora certa e quando ela voltou Senna levou no braço, fez a ultrapassagem em cima de Damon Hill.

“Ayrton Senna vive mais um momento de glória no circuito de Interlagos. Vence pela segunda vez o Grande Prêmio do Brasil, contra o imenso favoritismo das Williams, faz a festa do Brasil Ayrton Senna. Hill é o segundo, Schumacher é o terceiro.

“Ayrton Senna faz a volta da vitória, lentamente. Ele assume também a liderança do campeonato mundial de Fórmula 1!

“O público invade a pista, ninguém mais segura a torcida em Interlagos!

“É uma loucura, ele não tem mais por onde passar, fica complicado para Senna seguir.

“É o carinho da torcida brasileira, que invade a pista, que quer estar próximo de seu ídolo.” E assim foi.

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